Da França, passemos à Toscana, região da Itália,
onde em cidades como Florença e Siena praticava-se o calcio
(pontapé, coice, em italiano; calcx, calcis,
calcanhar, pé, em latim). O jogo havia sido regulamentado por
Giovanni Bardi, em 1580, e cada time compunha-se de 27 jogadores
assim distribuídos: 3 zagueiros recuados, 4 zagueiros
avançados, 5 médios e 15 atacantes.
A nobreza de Florença, notadamente na Renascença,
ao contrário dos fidalgos ingleses e franceses, apoiava o jogo
e, segundo a tradição, em 17 de fevereiro de 1529 houve uma
partida entre seguidores políticos de Seglio Antinori (com
trajes verdes) e de Dante Cantigliari (de branco), realizada na
Piazza Santa Croce. Esta partida é reconstituída anualmente nos
festejos do dia de São João, padroeiro da cidade.
Os italianos podem se orgulhar: em matéria de
futebol ordenado, foram pioneiros. Entre os praticantes do
calcio estavam jovens que depois se tornaram papas: Clemente
VII (Giulio de Medici), eleito em 1523, que enfrentou a
contestação da igreja anglicana; Urbano VII (Giambattista
Castagna), 1590, de família nobre de Gênova, e Leão XI
(Alessandro Ottaviani de Medici), 1605.
Menção especial deve ser feita a outro adepto do
calcio (antes da regulamentação de Bardi). Chamava-se
Antonino, nascido em Florença, em 1 de março de 1389, filho de
Niccolo e Thomasina Pierosi, ao tempo em que a cidade alcançava
grande esplendor, em meio à anexação de Pisa e Livorno, época
que coincidiu com o incremento do comércio marítimo e o poder
político-econômico da família Medici.
Antonino, após se notabilizar, na juventude, como
praticante do calcio, ingressou na vida religiosa, na
Ordem Dominicana, onde se destacou pela vasta cultura, aguda
sensibilidade para as artes sacras e pelas suas numerosas
virtudes. Veio a se tornar arcebispo de Florença, devendo-se a
ele, entre outras históricas iniciativas, a fundação do Convento
de São Marcos, onde criou uma atuante comunidade religiosa. O
povo de Florença chamava seu arcebispo de “Antonino dos Bons
Conselhos”.
Falecido em 2 de maio de 1459, aos 70 anos,
canonizado pelo papa Adriano VI, em 1523, Santo Antonino deveria
ser consagrado como padroeiro do futebol, abençoando
jubilosamente as boas jogadas, principalmente os gols de placa.
Entretanto, os detestáveis passes errados, pênaltis mal batidos,
lances violentos e chutes tortos deveriam merecer rigorosas
punições do santo florentino . . .
O calcio teve boas raízes e bons cultivos,
pois o jogo evoluiu na Renascença, período de um novo estilo nas
artes e na vida. Um marco italiano na história da humanidade,
que assinalou o fim da Idade Média. A organização do jogo teve
inspirações superiores, pois o conde Giovanni Bardi que, como já
foi dito, regulamentou sua prática, era um especialista em
harmonia lítero-musical, envolvido na erudição da camerata.
Assim, as equipes deviam atuar como se fossem academias
musicais, com a melodiosa integração dos seus instrumentistas.
A camerata caracterizava-se por ser uma
reunião informal onde os participantes debatiam assuntos
literários, filosóficos, artísticos, musicais etc. Bardi
costumava receber em seu famoso salão, em Florença, por cerca de
10 anos, a intelectualidade da cidade e da região da Toscana.
Entre os participantes estavam Piero Strozzi, Vincenzo Galilei e
Giulio Caccini.
Galilei era músico e literato, cultor de um
diálogo que refletia o humanismo iluminista da época. Caccini,
também literato, além de cantor e compositor, defendeu em seu
livro Le Nuove Musiche (1602) um novo estilo de canção, o
que provocou nítida e crescente valorização da música, quando
executada em uníssono por instrumentos e/ou vozes.
A influência da camerata nas primeiras
óperas, no seu objetivo de recriar a música grega antiga, está
registrada no Dialogo della musica antica, de
Galilei.
Ao lado de músicos de fina sensibilidade, havia
entre os adeptos do calcio pintores, arquitetos,
literatos, cientistas e pensadores que se somavam à burguesia e
à nobreza da Toscana e outras regiões da Itália. Florença, a
chamada “Nova Athenas”, considerada o berço da civilização
moderna, centralizava o movimento renascentista, que tirou a
Europa da escuridão que caracterizava a Idade Média com seus
sistemas feudais. A Renascença procurava reviver a civilização
grega, buscando maior desenvolvimento cultural.
A literatura tinha especial relevância, devendo
se notar que antes da invenção da tipografia por Gutenberg, em
1450, advento que facilitou enormemente a impressão dos livros,
um grupo de quarenta e cinco excelentes calígrafos, sob as
ordens de Cosimo Medici, produziu manualmente cerca de
duzentos livros, tarefa que se prolongou por dois anos. Protetor
das letras e das artes, Cosimo construiu palácios e monumentos,
fundou a Academia Platônica e a primeira biblioteca pública de
Florença.
Aí estão as boas raízes do calcio, já
existentes séculos antes da regulamentação de Bardi, além dos
seus bons cultivos no século XVI.
O jogo foi moldado, aprimorado e praticado por
gente melhor instruída, devotada às artes superiores; de
formação diversa dos celtas, anglos, saxões, normandos etc.,
povos envolvidos com as guerras de clãs, com os conflitos e as
disputas entre feudos. Populações belicosas que se confrontavam
e acirravam suas diferenças através de múltiplos confrontos. Daí
a violência, as confusões e tumultos que, notadamente na
Inglaterra e França, marcavam o futebol . . .